Notícias › 14/02/2014

Dom Aviz fala sobre Ano da Vida Consagrada

7919aa2dafAnunciado pelo Papa Francisco para 2015, o Ano da Vida Consagrada vai acontecer no contexto das celebrações pelos 50 anos do Concílio Vaticano 2º, explicou o cardeal João Braz de Aviz, prefeito da Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica.

Em passagem pelo Brasil para participar do Curso Anual dos Bispos, realizado pela Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro (RJ), dom João Braz concedeu entrevista aos Jornais O SÃO PAULO e “Testemunho de Fé”, e falou sobre ações previstas para celebrar o Ano da Vida Consagrada. Segundo ele, são aproximadamente um milhão e meio de religiosos e religiosas espalhados em cerca de dois mil institutos, ordens, congregações ou institutos de apostolados leigos.

Leia os principais trechos da entrevista.

O SÃO PAULO – Por que um ano voltado à vida consagrada?

Dom João Braz – O Papa Francisco sente que, neste momento, a vida consagrada precisa olhar para o passado com grande gratidão. Não vamos ficar só chorando pelos pecados. Tem muita coisa de erro, sim, mas também há muita tentativa de desmoralizar a Igreja. Vamos olhar para o passado agradecendo a Deus por tudo de bom e vamos rever o que está errado sem medo.

Depois, queremos olhar para o futuro com esperança. Não dizer “Ah, está tudo morrendo mesmo, não tem mais jeito”. E viver o presente com paixão. Esse é grande programa para o Ano da Vida Consagrada. O Papa tem um grande amor pela vida religiosa.

O SÃO PAULO – Quais ações estão previstas para marcar o ano da Vida Consagrada?

Dom João Braz – Estamos preparando a assembleia plenária da nossa Congregação para os Institutos de Vida Consagrada para outubro ou novembro de 2015. Também queremos realizar um encontro de superiores gerais em Roma. Prevemos, ainda, um encontro de pessoas que estão no âmbito da formação nos vários institutos, e queremos realizar, também, encontros por vocações e algo específico para vida contemplativa, como uma corrente de oração.

Essas são as primeiras perspectivas… O Papa também nos pediu para renovar os documentos fundamentais que falam da vida consagrada. Por exemplo, o documento que fala da relação entre bispos e religiosos, nós temos que rever, pois está desatualizado. O documento que fala da vida contemplativa dos monges e das monjas também tem que ser revisto, pois o que temos agora é de 1950.

Além disso, estamos para publicar um documento sobre os chamados “irmãos”, ou seja, aqueles que são consagrados e não se tornam padres, para revalorizar essa vocação como ela é. É uma vocação muito grande e ela foi deixada um pouco na sombra. Já estamos com o documento quase pronto. E, claro, queremos escutar aquilo que vai nascer no mundo inteiro.

O SÃO PAULO – Como apresentar aos jovens a vida religiosa? Ela responde aos anseios do homem atual?

Dom João Braz – É interessante, mas o jovem quer seguir Jesus. Quando a gente fala e testemunha Jesus, a gente nota que o jovem quer um grande ideal. Então, quando o jovem ouve um grande ideal e ele vê testemunhado um grande ideal, ele se sente atraído. Hoje, aqui no Rio de Janeiro, a referência que tenho diante dos meus olhos é a imagem do que aconteceu entre os jovens e o Papa Francisco durante a Jornada Mundial da Juventude (JMJ).

Mas isso não é só aqui. Nós temos, por exemplo, movimentos onde os jovens tem despertado para todos os tipos de vocações.

Tem muita gente que pensa que a vida consagrada não existe mais. Ela não tem mais a mesma força em determinados lugares, como a Europa. Mas aqui na América Latina, África e em parte da Ásia as vocações estão se desenvolvendo de modo muito profundo.

Neste sentido, o jovem responde. Mas ele precisa de autenticidade e de desafio, pois o jovem não quer coisa pequena. Ele quer algo que valha a pena dedicar toda a sua vida.

O SÃO PAULO – Como renovar a vida religiosa sem perder a fidelidade aos carismas?

Dom João Braz – Aqui tem duas coisas. O carisma é como uma herança que cada família religiosa recebe do seu fundador, da sua fundadora. A primeira coisa é que se uma congregação quer sobreviver, deve permanecer fiel à luz que recebeu. Se começar a pular de galho em galho, e ir para campo que não é dele, ele mata o carisma, por que a graça não estava naquela outra coisa, mas naquilo que foi dado ao fundador.

Agora, do outro lado, o fundador, às vezes, viveu no século passado e a linguagem do século passado, a organização da sociedade, eram diferentes. Então, precisa atualizar o diálogo com a cultura atual. Nós temos que escutar o homem e a mulher, perceber quais são as suas sensibilidades, quais são seus valores, conviver e aprender com a sociedade, mas não perder aquilo que vem do carisma e aquilo que vem do Evangelho.

O SÃO PAULO – Quais são as preocupações e anseios da vida religiosa hoje?

Dom João Braz – Nós temos alguns problemas. Por exemplo, temos que recuperar profundamente a vida fraterna, a vida de família dentros das congregações e das ordens. Por que se você está numa casa e não se sente bem nela, você vai para a rua. O jovem também faz isso. Nós temos que recuperar esse senso da fraternidade, onde você está com o outro e sente alegria, não desconfia, onde você quer o bem do outro e se deixa modificar pelo outro.

Outro desafio é voltar aquilo que foi a primeira decisão da gente no seguimento da vocação do consagrado. O que aconteceu ali? Ali Deus manifestou seu grande amor pela gente. E nós nos sentimos atraídos pela beleza deste amor. Depois, acabamos nos desiludindo um pouco, o caminho é sempre difícil, com tropeços. Então, é preciso recuperar essa ligação profunda com Jesus para se deixar moldar por ele.

Também é preciso saber a hora de sair das obras… Se tem muita obra e pouca gente, deixa de lado um pouco de obra. Não mata o carisma. Segura o carisma e deixa as obras. Deixa a obra à disposição da Igreja e cuida do carisma.

Também é preciso fazer a ligação entre novos e antigos carismas. Não são dois Espíritos. É o mesmo Espírito que falou no passado e que agora fala no presente. Se não a gente contrapõe os movimentos atuais dizendo “bom, os outros já passaram, e agora é conosco”. Não é assim.

Por Arquidiocese de São Paulo com” O São Paulo”

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