Notícias › 08/07/2014

Dom Petrini fala sobre resolução “Proteção à Família” da ONU

dom_petrini_300x400O Conselho de Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas (ONU), em seu 26° período de sessões, aprovou a resolução de “Proteção à Família”, que reconhece a família como o núcleo “natural e fundamental da sociedade, e tem direito a proteção por parte da sociedade e o Estado”.

Dom João Carlos Petrini, Bispo de Camaçari (BA), Presidente da Comissão Episcopal Pastoral para a Vida e a Família e Diretor da seção brasileira do Pontifício Instituto João Paulo II para Estudos sobre Matrimônio e Família, em entrevista ao A12.com, comentou a resolução da ONU.

A12 – Como a Comissão Episcopal Pastoral para a Vida e Família da CNBB avalia a resolução “Proteção à Família” da ONU?

Dom Petrini – É com grande alívio que tomamos conhecimento da resolução do Conselho de Direitos humanos da Organização das Nações Unidas (ONU), em seu 26° período de sessões de “Proteção à Família”, na qual a família é reconhecida como o núcleo “natural e fundamental da sociedade, e tem direito a proteção por parte da sociedade e o Estado”.

Trata-se de uma decisão importante e muito inesperada. O mundo da comunicação e também o mundo político pode ser alimentado e movido por informações que correspondem à realidade, observada a partir de estudos científicos sérios. Mas, pode ser alimentado também por ideologias elaboradas por grupos de militantes que não correspondem à realidade assim como ela pode ser observada, antes, tem como objetivo desconstruir a realidade da família, mesmo em sua positividade, procurando construir em seu lugar outra coisa, a partir das imagens que a ideologia sugere.

Existem muitos estudos¹ que, a partir de investigações de caráter científico, chegam à conclusão de que a família constitui um recurso essencial para o crescimento da pessoa e para o desenvolvimento da sociedade.

A12 – É possível dizer que há uma tendência dos últimos tempos de tratar a família como o centro dos conflitos? Por quê?

Dom Petrini – A família enfrenta circunstâncias sociais e culturais adversas. Por exemplo, as exigências atuais do trabalho não somente demandam muitas horas fora de casa que aumentam pelas dificuldades da mobilidade urbana. Esta circunstância afeta não somente os homens, mas também as mulheres. Além disso, especialmente quem está em cargo executivo, necessita viajar de uma capital a outra para responder às necessidades das empresas. Já nos anos 80, o sociólogo alemão Ulrich Beck afirmava que na sociedade moderna plenamente realizada não há lugar para a família, não há lugar para os filhos. Além dessas dificuldades objetivas, existem grupos que atribuem à família os piores males que afetam a mulher e os adolescentes: violências e opressões de todos os tipos. Por isso, a solução seria “des-familiarizar”, reduzir a família ao mínimo.

Já muitos passos foram dados nesse sentido. Um deles é a equiparação da família com qualquer convivência sob o mesmo teto motivada por algum tipo de afetividade: se tudo é família, então, nada é família. Perdem-se as características constitutivas da realidade familiar que tiveram vigência desde Adão e Eva até outro dia. Outro passo é a tentativa de suprimir as palavras pai e mãe, substituindo-as com genitor A e genitor B. As figuras do pai e da mãe seriam reduzidas a (ou trocadas por) cuidadores. Isto quer dizer que as relações de paternidade e de maternidade perdem suas características constitutivas da existência das novas gerações e são substituídas por relações de tipo funcional, que por natureza são intercambiáveis. Esta operação ousada de anulação da parentalidade poderá ter muitas consequências atualmente não consideradas.

A12 – Se há uma tendência dos últimos tempos de tratar a família como o centro dos conflitos, como reverter isso?

Dom Petrini – A família é como a busca por liberdade: podemos viver no regime mais autoritário e opressor do mundo ou no país mais injusto e corrupto, capaz de entorpecer as pessoas intimidando-as e procurando persuadi-las de que o poder deles é invencível, tudo banalizando para esvaziar significados e inibir desejos. Assim mesmo, sempre haverá pessoas sonhando com liberdade e justiça, planejando formas de reverter a situação. De fato, a família, de um lado, se adapta a este mundo moderno e às mudanças que ocorrem na sociedade e, de outro lado, resiste, procurando driblar as adversidades.

Nesse sentido, a família, seu modo de organizar suas relações internas (a conjugalidade, a paternidade e a maternidade, a fraternidade, etc.) e as relações com o contexto sociocultural, será sempre mais fruto de uma escolha livre e consciente das pessoas.

Existem muitas famílias novas, que assimilaram os valores mais importantes da cultura moderna, tais como a igualdade entre os sexos e o diálogo entre as gerações, rejeitando atitudes autoritárias próprias do machismo e estilo disciplinador de educar os filhos. No entanto, preservam valores que são considerados próprios da tradição (não modernos) tais como a fidelidade conjugal, a dedicação aos filhos, a disponibilidade ao sacrifício pessoal para o bem de outro e do conjunto. São as famílias ligadas à Pastoral Familiar e as que nascem de grandes Movimentos Católicos e de Novas Comunidades.

A12 – O Brasil foi um país que se absteve do voto nessa resolução da ONU. Como podemos avaliar a proteção às famílias em nosso país?

Dom Petrini – No Brasil, a proteção à família está garantida na constituição. Além disso, a grande maioria das pessoas preza pela família, mesmo quando esta parece dissolver-se em suas mãos, sem compreender o que está acontecendo. De fato, cerca de 90% da população brasileira considera a família como o maior valor. E cada um deseja que a sua família dure no tempo.

No entanto, lideranças com alta escolaridade e com influência nos meios de comunicação e em áreas do poder político não hesitam em ir contra a vontade da maioria, procurando variados meios para impor sua visão. Evidentemente, não interessa a realidade popular e menos ainda a democracia e, sim, a imagem ideologicamente elaborada de uma sociedade sem pais e sem mães, com formas familiares de breve duração que possam ser produzidas à vontade, com exigências e responsabilidades reduzidas ao mínimo.

Não é difícil observar, nesse horizonte, o emergir de modos desumanos de conviver, situações sempre mais difusas de solidão, necessidade de evadir-se da realidade com consumo de grandes quantidades de álcool e de drogas, com índices assustadores de violência.

A família, fundada no vínculo indissolúvel do matrimônio, constituída por um homem e uma mulher e por eventuais filhos, é o modo melhor de viver o amor humano, a maternidade, a paternidade, porque corresponde ao desígnio de Deus, é o caminho da maior realização humana e, ao mesmo tempo, constitui o bem mais decisivo para que a sociedade cresça na paz. Por isso, o Bem-aventurado João Paulo II, na Familiaris Consortio afirmava: “O futuro da humanidade passa através da família”.

O testemunho de uma humanidade redimida, de pessoas realizadas e felizes na família cristã poderá vencer o vazio de humanidade que se percebe no quotidiano e que é alimentado pela ideologia do relativismo e do individualismo. Assim, nasce a família missionária, capaz de comunicar aos outros a alegria, a beleza e a paz de que faz experiência. Uma realidade assim pode existir somente como fruto de uma educação que oferece aos membros da família as razões para decidir livremente suas escolhas de vida.

¹ Estudos que vão desde o Perry Preschool Program e das considerações sobre seus resultados elaboradas por James Heckman em Stimulating the Young que podem ser vistas no sito “The American” e na transmissão radiofônica na National Public Radio do dia 05 de agosto de 2009, “Scholar: Early Education Makes all the difference”, podendo continuar com os estudos de D. W. Winnicot e os de Pierpaolo Donati da Universidade de Bolonha ou os estudos de E. Scabini e G. Rossi da Universidade Cattolica de Milão, por exemplo, no livro La ricchezza delle Famiglie.

Por A12

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